o que os homens não aprendem a sentir
ninguém ensina diretamente.
não existe uma aula,
um manual,
uma conversa explícita.
mas, ainda assim,
muitos homens aprendem.
aprendem o que pode aparecer
e o que precisa ser contido.
aprendem quais emoções são aceitáveis
e quais precisam ser escondidas,
evitadas,
atravessadas em silêncio.
cedo, algumas portas começam a se fechar.
tristeza vira fraqueza.
medo vira vergonha.
vulnerabilidade vira risco.
no lugar disso,
aparecem outras formas de existir.
controle.
desempenho.
silêncio.
não porque alguém escolheu assim.
mas porque foi assim que deu para continuar pertencendo.
o problema é que o que não é sentido
não desaparece.
encontra outros caminhos.
às vezes no corpo.
às vezes na irritação.
às vezes na distância.
às vezes na dificuldade de se relacionar.
e, muitas vezes,
na sensação de não saber exatamente o que se sente.
não por falta de emoção.
mas por falta de linguagem.
nos grupos, isso aparece devagar.
primeiro como silêncio.
depois como relato.
depois como alguma tentativa de nomear.
e, às vezes, pela primeira vez, algo ganha palavra.
não resolve tudo.
mas abre.
abre a possibilidade de sentir sem precisar esconder.
de sustentar sem precisar endurecer.
de existir sem precisar performar o tempo todo.
talvez o trabalho não seja ensinar os homens a sentir.
mas criar espaço para que aquilo que já existe possa, enfim, aparecer.