ser pai depois do luto
existe um tipo de silêncio que não passa.
ele não grita.
não pede atenção.
não ocupa o centro.
mas fica.
é com ele que eu acordo.
é com ele que eu durmo.
é com ele que eu sigo.
e, no meio disso, existem duas crianças.
duas vidas que continuam pedindo presença,
cuidado,
rotina,
algum tipo de estabilidade.
ser pai depois do luto não é sobre dar conta.
é sobre continuar, mesmo quando não há chão firme para continuar.
é preparar o café da manhã com o corpo ainda atravessado.
é organizar mochila, horário, banho, sono,
enquanto uma parte de você ainda tenta entender o que aconteceu.
as crianças seguem crescendo.
e, de alguma forma,
isso exige que a vida siga junto.
mas não é a mesma vida.
nada volta a ser exatamente como era.
o que existe é outra coisa.
uma vida que se reorganiza em torno da ausência,
e aprende — aos poucos — a existir assim.
tem dias em que consigo sustentar isso com mais presença.
em outros,
apenas faço o necessário.
e talvez seja isso:
continuar sendo pai
dentro daquilo que ainda é possível.
não o pai que eu imaginava.
não o pai que existia antes.
mas o pai que existe agora.
com o que ficou.
com o que falta.
com o que ainda é possível construir.